O soundcheck começou às 15h e eu já estava atrasada. Mas não era a única. Jorge Antunes, principal responsável pelo Xavalo Fest e músico dos Ekcetera, mandou-me mensagem a avisar que só iria chegar à Socorro, loja de discos portuense onde ocorreu a quinta edição do Xavalo, pelas 17h de sábado (22).
Desci as escadas até à cave do espaço e o som tornou-se progressivamente mais ensurdecedor. Enquanto os Bastardos Mutantes faziam o soundcheck no pequeno e acolhedor palco da Socorro, no terraço exterior estavam as restantes bandas, Mindelo e bbb hairdryer, esta última o nome principal da quinta edição do evento. Quando terminaram o soundcheck, os Bastardos Mutantes juntaram-se aos restantes para fumar um cigarro. Logo depois, Jorge chegou apressadamente, cumprimentou os músicos e desculpou-se pelo atraso. “Estive a cozinhar um quilo de massa com legumes para as bandas”, confessou. Foi aí que percebi que a magia de que ouvi falar acerca do festival era real.

A ideia que deu origem ao Xavalo Fest surgiu numa conversa entre Jorge e um dos membros dos Estriknina. “Devia haver um festival só para os chavalos”, dizia ele. A ideia não lhe saía da cabeça. Na altura, Jorge tinha apenas 17 anos mas decidiu ir avante com o conceito. Começou a contactar vários espaços do Porto e a falar com bandas amigas para montar a primeira edição. Entrou a Socorro na equação e um conjunto de bandas oriundas da marginalidade do Grande Porto – O Triunfo dos Acéfalos, Estriknina e Yaatana – para dar origem à primeira edição do festival, que ocorreu em dezembro de 2023.
O conceito para o Xavalo Fest não surgiu por acaso. Com algumas experiências de palco, Jorge Antunes foi desenvolvendo aversões aos espaços onde tocava. Tocar em alguns sítios parecia-lhe demasiado complicado, sem grande necessidade de o ser. Barreiras que não precisavam de existir necessitavam de ser derrubadas. “O que quero fazer com o festival é descomplicar as coisas”, explicou. O vocalista e guitarrista dos Ekcetera, que assina a solo como J/A, define o evento como um projeto de “punk a sério”, um gesto de protesto contra os grupos e promotoras que têm monopolizado a produção cultural em Portugal. “Estamos a trazer independência às coisas. Queremos criar um movimento musical sem coletivos nem editoras, descentralizado e com espírito de união”, afirmou.

Para a seleção das bandas, Jorge segue um critério simples e coerente: “Escolho as bandas porque gosto e ouço, tentando sempre criar um cartaz eclético. Nunca houve uma edição do Xavalo em que duas bandas fossem extremamente parecidas”, refere o músico. E há sempre uma regra “secreta” a que gosta de obedecer: não fala com intermediários.
“Só falo diretamente com as bandas porque quero fazer a seleção da forma mais pura possível. Acho que funciona melhor assim porque quando entra alguém com a mentalidade de fazer dinheiro perde-se a qualidade toda. Tenho bandas que querem realmente tocar, e é por isso mesmo que, às vezes, trazemos bandas adormecidas.” Foi o caso dos Cat Soup, banda portuense de rock instrumental que estavam fora dos radares e dos palcos. Com o convite para o festival, voltaram a despertar. No dia 12 de fevereiro, os Cat Soup vieram tocar o seu you only 180 ao Musicbox, em Lisboa, exatamente um ano após terem tocado na segunda edição do Xavalo Fest. Nessa noite, quem abriu o concerto dos Cat Soup foi Gonkallo. A amizade entre as bandas nasceu onde? No Xavalo.
Perto das 17h30, a cave da Socorro enchia-se de pessoas, na sua maioria jovens – ou utilizando a expressão mais cliché, chavalos. A inaugurar a quinta edição do festival, subiu ao palco o duo formado pelo baterista Diogo Neto e o baixista Diogo Malcata (sim, são os dois Diogo). Mindelo — nome que homenageia a localidade onde está situada a garagem onde costumam ensaiar e compor os seus temas — surgiu quando Miguel Ribeiro, guitarrista de Penumbra, banda do qual os Diogos também fazem parte, anunciou que estaria fora do país durante algum tempo. Para ambos, a ideia de parar de tocar e produzir era quase como um eczema. Por isso, decidiram criar em 2023 este projeto instrumental barulhento e “rude”. Apesar de já conhecerem o Jorge, os músicos admitiram que aproveitaram a oportunidade de tocar no festival para gravar os seus temas ao vivo. Começou, então, a quinta edição do Xavalo Fest.
Mindelo

Malcata encosta o telemóvel aos pickups do baixo, e ouço o que me pareceu ser o relato de uma notícia, envolta numa intensa distorção. Num choque de feedback, o baixista dá o sinal de entrada para Neto. É pela eletrizante pujança do baterista que somos atingidos por uma parede de ruído e distorção, mas recebemo-la de bom grado. Serviu quase como tratamento de choque para despertar um público ainda contido. O primeiro tema termina, prolongando-se o feedback até um silêncio absoluto. Há aplausos que demonstram comprometimento com o que estava para vir.

Frente a frente, os Diogos apresentaram-nos uma conversa contrastante entre caos e melodia. De um lado, a bolha de ruído protagonizada pela inquietante e agressiva técnica de Neto por detrás do kit. Do outro, linhas de baixo melódicas, muitas vezes a darem origem a sons que mais se assemelhavam a uma guitarra ou até mesmo a uma voz. O noise e o poder sónico dos pedais do baixo de Malcata (e quem não gosta de uma boa pedaleira?) ajudaram a que a transição entre malhas ocorresse de forma suave.
O concerto de abertura da quinta edição do Xavalo Fest foi um espetáculo de ritmos acelerados, muitos pratos a escutarem-se e composições densas. Apesar do set curto, Mindelo apresentou uma setlist coesa e sem pausas constrangedoras. Quando a conversa entre baixo e bateria se deu por concluída, tudo o que se escutou ruidosamente antes pareceu fazer sentido – pelo menos, na minha cabeça.
bbb hairdryer
O desejo de ver bbb hairdryer era palpável na sala. Depois de uma curta pausa para uma cerveja e um cigarro, comecei a reparar que novas caras desciam até à cave da Socorro. Com o seu último longa-duração, A Single Mother / A Single Woman / An Only Child, aclamado pela crítica, a curiosidade de ver o grupo ao vivo ia além da música. Era sabido e partilhado por muitos que a presença dos bbb hairdryer em palco era imprevisível, crua e queer. Tudo soa muito mais autêntico quando a entrega é visceral, não é? Os rumores sobre o que é um concerto de bbb hairdryer não estavam errados.


Elisabete Guerra, vocalista e guitarrista, pousa o seu urso de peluche em cima do amplificador e dedilha acordes embrulhados em distorção, chamando a atenção do público. chica, também guitarrista, Elisabete e Francisco Couto (aka HIFA), baixista, posicionam-se lado a lado, de costas para o público, virados para os amplificadores. Ao início, pensei que isto fosse temporário, mas reparei que até os setups dos pedais estavam dispostos na mesma direção. Um silêncio instalou-se. Elisabete solta todo o ar do peito para dar entrada à fatal “Wrong Bones / Knife”, e o caos tomou conta do palco. O público fica vidrado no grupo. Sem pausa para respirar, avançam diretamente para “Count Your Feelings”, tal como fazem no álbum.
Após três canções, um dos elementos da bateria de Miguel Gomes (mais conhecido por Chinaskee) partiu-se. Elisabete sugeriu que alguém segurasse a peça danificada e, surpreendentemente, durante duas canções seguidas, alguém conseguiu remendá-la com fita cola. Não se sabe bem como, mas resistiu até ao fim do concerto sem que a energia de Miguel fosse comprometida. Ouvimos então a arrepiante “P.O.V. I’m Lying To You – ‘I Don’t Wanna Be Phoebe Bridgers Anymore'”, onde Elisabete despeja amargura e emoção na sua voz trémula e levada ao limite. Todos os membros da banda sentem a música. O mesmo acontece com o público. Ao meu redor, vejo pessoas mergulhadas no som de bbb, mas que preferiram permanecer no seu espaço, oscilando ao ritmo agressivo da bateria. A vontade de gritar e envolver-me tornou-se mais forte, mas senti que fui também engolida pela mesma nuvem de timidez que pairava na sala.

Para evitar silêncios constrangedores entre músicas, Elisabete intervinha com comentários. “Queers in the front always”, disse antes de voltarem a perfurar as paredes da cave com canções como “Yearn”. Porém, o ambiente satírico passou para algo fortemente performativo e arrebatador. Depois da banda pedir três finos (trazidos pelos Bastardos Mutantes, que tocaram a seguir), chegou a vez de “HATE”.
Envolvida nas emoções que carregam o tema, Elisabete saltou para o público, correu até ao final da sala e tentou abrir um mosh. Subiu novamente ao palco e, no auge do caos sónico do tema, bateu com a testa na guitarra. Apesar do tema ter obrigatoriamente um silêncio, nesta sala caiu um ambiente sufocante. De costas voltadas para o público, ouvimo-la improvisar: “My skin tastes different today“. Reparei que a sua testa sangrava, deixando uma pequena poça de sangue marcada no palco. Estávamos todos paralisados. Esperei que alguns abandonassem o concerto, mas ninguém saiu. O público ficou até ao fim, e alguns ficaram sem olhar para o palco, apenas sentindo a música. A preocupação e a dúvida surgiu quando os membros dos Bastardos Mutantes trouxeram um kit de primeiros socorros quando a banda terminou o concerto. Um momento que não deu liberdade para interpretações romantizadas do rock’n’roll, apenas deixou ferida nas nossas memórias. Concertaço.
Bastardos Mutantes

Bastardos Mutantes encerraram a matiné de concertos. O grupo oriundo de Vila Meã passou recentemente por uma nova encarnação. O guitarrista, César Silva, contou que o projeto surgiu em 2016 como um side project de três músicos. Em dois meses, lançaram o disco FITA GASTA, deram meia dúzia de concertos, mas depois “cada um seguiu o seu caminho”. Em 2023, o regresso foi motivado pela saudade de tocar e, há apenas um mês, Bastardos Mutantes completaram a formação com dois novos elementos: Mar, filha de César, no baixo, e Beni, na voz. “Já a conhecíamos [Beni] há algum tempo, porque participou com a minha filha na Escola de Rock, em Paredes de Coura. Gostámos logo da voz e da personalidade dela”, contou o membro fundador da banda.

Bastardos Mutantes definem a sua música como “pim pam punk”. “Muito punk nas letras e na mensagem e rock vanguardista e abstrato nas melodias”, explicou César. O seu concerto deixou clara uma das essências do Xavalo Fest. Na primeira fila, para ver uma banda que mistura gerações, estavam muitos chavalos, provavelmente amigos, amantes do rock e punk alternativo, que ali encontravam o seu espaço para dançarem e mosharem.
O concerto dos Bastardos Mutantes foi um concerto que fez o público dançar e gritar, como pediu o vocalista. O vanguardismo ia do uso do theremin a solos de guitarra tocados com um arco de violino, até à presença irreverente e divertida de Mar em cima de palco. Assistimos a uma partilha entre músicos experientes que apenas querem tocar e os primeiros passos de jovens artistas que estão a explorar o seu estilo e presença no palco. Esse espírito de partilha e companheirismo rapidamente contagiou o público, que se deixou envolver pela bolha da banda até ao final do concerto e, por consequência, da quinta edição do Xavalo Fest.


O sentido de comunidade a florir na Rua Guedes de Azevedo
A matiné deu-se por concluída no terraço. Com alguma chuva e pouco refúgio, amigos, músicos e fãs juntaram-se para conversar, e alguns tiveram a sorte de poder provar a especialidade do Jorge. Dentro do maior tupperware que já vi na vida estava massa wok com legumes salteados, prestes a ser servida em pratos de bebé com garfos de plásticos verde fluorescente.

Cansada, despedi-me e subi até à loja. Ainda antes de sairmos, vasculhei mais um pouco os vinis e os CDs com o amigo que me acompanhava. Ele levou o primeiro disco dos The Doors em CD. Na caixa estava Eduardo Fernandes, funcionário da Socorro. Perguntei-lhe por que razão o espaço aceitou receber o festival. Contou-me que o dono da loja, João Pimenta, compreende a necessidade de haver mais salas de espetáculos por ter passado pelas mesmas dificuldades que Jorge Antunes e outros jovens com bandas emergentes passam. Afinal, João Pimenta foi, outrora, baterista dos 10 000 Russos, banda que atualmente está, curiosamente, adormecida. O próprio Eduardo, outrora vocalista de outra banda adormecida, os Tallowate, relatou a sua surpresa não só com a sonoridade das bandas que tocaram na 5ª edição do Xavalo, mas também com o cuidado que os músicos têm com o seu material e soundcheck. “No meu tempo, não queríamos saber se o som estava equalizado ou não, nós só queríamos tocar”, confessou. A prova de que, por muito que o Xavalo esteja assente no espírito do it yourself, não deixa para trás a ideia de que é preciso fazer as coisas com o mínimo de qualidade.
Abandono a Rua Guedes de Azevedo com a esperança de que, pelo menos naquele lugar, enquanto houver vontade e união, eventos como o Xavalo possam continuar a acontecer e a dar vida à cidade do Porto por algum tempo. Afinal, há muitas bandas portuenses que precisam de palco para tocar. No Xavalo, talvez o encontrem. Naquela noite, Jorge confirmou-me também que a sexta edição do festival já tinha cartaz fechado. A 26 de abril, o Xavalo regressa à Socorro com Cat Soup, Mangualde (outra banda de Jorge Antunes) e aMijas. É apontar a data e aparecer. Pode ser que até comam massa com as bandas.
Fotografia de destaque: Inês Aleixo