Doechii e a arte de quebrar regras

Jaylah Ji’mya Hickmon, mais conhecida pelo seu nome artístico Doechii, sempre desafiou normas. Nascida em Tampa, Florida em 1998, começou a explorar a música ainda jovem, construindo um som que atravessa o rap, o soul e o R&B experimental. Desde o início, era evidente que não estava aqui para se encaixar em padrões, mas sim para desafiar expectativas e reconstruir o hip-hop a partir da sua própria essência. Foi com “Yucky Blucky Fruitcake” – faixa incluída no EP On The Places You’ll Go (2020) – que o mundo finalmente prestou atenção. Entre flows dinâmicos, mudanças inesperadas de tom, um refrão cativante e uma lírica autobiográfica que mescla vulnerabilidade e confiança, o tema serviu como cartão de visita oficial para a sua identidade artística: camaleónica, irreverente, ousada e impossível de rotular. O single tornou-se um fenómeno no TikTok, catapultando-a para o radar da indústria e deixando claro que ela não era só mais uma promessa do hip-hop – era uma força disruptiva prestes a redefinir tudo.

Doechii continuou a expandir o seu universo artístico com o lançamento do EP Bra-Less, em 2021. No ano seguinte, apresentou she / her / black bitch, um projeto que marcou um novo ponto de viragem: a sua primeira assinatura com a TDE – Top Dawg Entertainment, casa de artistas como Kendrick Lamar e SZA. O trabalho captou a atenção da indústria e do público alternativo, preparando terreno para uma maior ascensão. 

Agora, com o seu novo álbum, Alligator Bites Never Heal, Doechii supera quaisquer expectativas, entregando uma obra-prima que é tão imprevisível quanto arrebatadora. Mais do que uma simples coleção de canções, o disco é um manifesto, um grito de liberdade criativa que dança entre o caótico e o sublime. Se antes Doechii já se destacava pela autenticidade crua e sem filtros, agora fá-lo com um rigor quase cirúrgico. Cada faixa carrega uma assinatura própria, uma energia que mistura vulnerabilidade e arrogância, confiança e experimentação. O álbum é uma viagem visceral pelos altos e baixos da sua jornada – das raízes underground ao estrelato global. Há algo quase cinematográfico na forma como Doechii conduz a sua arte. Isto não é apenas para ser ouvido, mas para ser sentido e absorvido. As letras são, ao mesmo tempo, íntimas e grandiosas, como se transformassem a sua história pessoal em algo universal. Fala sobre dores, sobre conquistas e sobre o peso de se tornar um nome incontornável na indústria enquanto tenta manter a sua autenticidade intacta. Cada faixa tem um propósito e uma intenção clara, e é essa coesão que torna este projeto tão marcante.

Já a inovação sonora e a fusão de géneros são um espetáculo à parte neste álbum. Doechii não se prende a um único estilo: salta entre batidas electrónicas, influências de jazz, melodias pop e a agressividade crua do rap sem que nada pareça forçado. O resultado é uma tapeçaria sonora que desafia rótulos, onde cada detalhe soa intencional e cada escolha estilística adiciona camadas à sua narrativa. Desta forma, Doechii ajuda a desconstruir a ideia da rapper feminina como um arquétipo fixo. Sim, ela pode ser dura e sensível na mesma faixa. Sim, ela pode cuspir barras afiadas e, logo em seguida, soltar vocais melódicos que criam uma atmosfera quase etérea. Não há um molde no qual ela se encaixe. E talvez seja exatamente isso que a torna tão fascinante – a liberdade de ser múltipla, sem pedir permissão.

E claro, não podemos ignorar o impacto cultural que este álbum está a ter. Não foi à toa que Doechii fez história, em fevereiro deste ano, ao vencer o Grammy de Melhor Álbum de Rap com Alligator Bites Never Heal, tornando-se a terceira mulher a conquistar esse mesmo prémio, após Lauryn Hill e Cardi B. Após a sua vitória, um vídeo antigo ressurgiu nas redes sociais, mostrando Doechii em 2020, recém-demitida de um emprego, falando sobre os seus planos de buscar oportunidades na música. O vídeo tornou-se rapidamente viral, sendo amplamente partilhado por fãs e outros artistas como um exemplo de perseverança e autoconfiança. Muitos viram nesse momento um reflexo da luta de inúmeras mulheres no hip-hop que, apesar dos desafios, continuam a reinventar-se e a conquistar espaço numa indústria historicamente dominada por homens.

Doechii já provou que tem o toque de Midas quando se trata de criar tendências – basta olhar para o sucesso viral que acompanha cada lançamento seu (como a mais recente tendência no TikTok com a canção “Anxiety”). Mas, mais do que isso, está a criar um espaço onde a experimentação é celebrada, onde não há medo de sair da caixa. Numa indústria onde a previsibilidade muitas vezes domina, a artista surge como um lembrete poderoso de que a inovação ainda é possível e, mais do que isso, necessária. Doechii continua a provar que não se trata apenas de números, charts ou tendências passageiras. Doechii está aqui para criar, inovar e mostrar que o hip-hop, quando misturado com ousadia e verdade, pode ir muito além do que já conhecemos. Ao fim e ao cabo, este álbum é mais do que um marco na sua carreira – é um statement. Doechii não está apenas a fazer música; está a redefinir o jogo. E o mais impressionante? Está apenas a começar.

Nascida e criada em Aveiro, mas com a Covilhã sempre no coração, cidade que a acolheu durante os seus estudos superiores. Já passou pelo Gerador, e pelo Espalha-Factos, onde se tornou coautora da rubrica À Escuta. Uma melómana sem conserto, sempre com auscultadores nos ouvidos e a tentar ser jornalista.
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Do underground ao mainstream, uma artista que nunca deixa de surpreender.

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