O thrash metal precisa de mais King Gizzard & The Lizard Wizard

O meu adeus oficial ao thrash metal decorreu em 2019, no MEO Arena, no concerto de despedida dos Slayer. Lá estava eu, de battle vest, no meio do caos, num mosh violento, cercado por homens suados de cabelo comprido. Naquela época eu estava imerso na cena do thrash, papava tudo que era bandas com nomes acabados em -ator (Annihilator, Violator, Kreator, Traitor, entre muitas outras) ou qualquer música sobre pizza, cerveja, política. Mas foi nesse concerto onde me apercebi que já estava a correr em círculos há algum tempo (figurativamente e literalmente). A música começou a soar-me tudo ao mesmo e se calhar estava a chegar a hora de baixar os bpms um bocadinho. A minha paixão pelo thrash metal começou a esvanecer-se e senti que o género já me tinha dado tudo o que tinha para oferecer. Aos poucos, fui deixando-o para trás, como se tratasse de um capítulo encerrado da minha vida.De vez em quando, ainda sinto uma pontada de nostalgia por esses tempos e lá vou eu escutar os clássicos. Retorno a esses discos que tantas alegrias me deram, como o Kill ‘Em All dos Metallica, ou o South of Heaven dos Slayer (estes são geralmente os meus go to). Porém, sempre que o faço, fico decepcionado por saber que ouvir thrash não vai ficar muito melhor do que ouvir esses álbuns. De música verdadeiramente criativa e original daquela onda, pouco mais existe além das mesmas bandas dos anos 80. A monotonia instalou-se.

As novas bandas soam como versões recicladas das antigas, enquanto os grandes nomes se agarram às glórias do passado. Mais triste ainda é ver bandas lendárias em digressões intermináveis de despedida. Não é preciso prestar-se muita atenção aos cartazes de festivais em Portugal como o Vagos Metal Fest ou o Evil Live, ou mesmo os maiores da Europa como o Wacken Open Air, para inferir que os nomes mantém-se sempre os mesmos e a média de idades dos músicos em palco raramente é inferior à casa dos cinquentas. Vejo nestes cartazes um esforço enorme por apelar à nostalgia e uma ausência gritante de novidade. A cultura do metal, que antes me cativava tanto pela atitude revolucionária, tornou-se num culto à tradição.

Não quero cair no discurso nostálgico de que  “já não se faz música como antigamente”. O problema não está na criação, mas sim na disposição do público em ouvi-la. Bandas como Blood Incantation, Liturgy e Deafheaven são exemplos disso. Expandem horizontes, misturam géneros e reinventam o próprio conceito de metal. No entanto, ao invés de serem abraçadas como uma evolução natural do género, são tratadas como corpos heréticos pelos metaleiros puristas. Isto é bastante irónico, dado que o metal é um género tão herético.

Para mim, o problema está, em grande parte, na mentalidade dominante dentro da cena. Isto aplica-se tanto aos fãs mais jovens como aos mais velhos. O metal sempre teve um lado conservador e uma certa rigidez na forma como define os seus próprios limites. Influências externas são toleradas, desde que não se afastem demasiado da norma. Dentro desse cenário, sinto que o thrash metal sofre ainda mais do que os restantes subgéneros de música pesada como o death, doom ou black metal. De vez em quando, aparece uma banda a agarrar nesses estilos e a dar-lhes uma nova vida – ainda que sem o reconhecimento merecido. O thrash nem isso.

Mas qual será a solução para salvar o thrash metal? Será que já o podemos declarar como morto? Digo sempre, que, se o som não evolui, não muda, torna-se aborrecido e, inevitavelmente, desaparece. Nunca vale a pena olhar para o passado e tentar reviver os tempos de glória. Os King Gizzard & The Lizard Wizard personificam essa mentalidade. A banda australiana recusa-se a estagnar e o seu percurso prolífico – chegaram a lançar cinco álbuns num único ano civil – está cheio dos mais variados sons, thrash metal incluído.

Formados na Austrália em 2010, os KGLW são liderados por Stu Mackenzie (voz e guitarra) e contam com Ambrose Kenny-Smith (teclados), Joey Walker (guitarra e vocais), Cook Craig (guitarra e baixo), Lucas Skinner (baixo) e Michael Cavanagh (bateria). Um coletivo de músicos versáteis, que trocam de instrumentos com naturalidade e transitam entre géneros sem esforço. Os King Gizzard & The Lizard Wizard são a personificação da filosofia de experimentarem com géneros enquanto se divertem a tocar os seus instrumentos, e é exatamente essa atitude que o metal precisa.

Analisar o percurso musical inteiro dos KGLW ia requerir todo um artigo separado. Contudo, basta dizer que os australianos são mestres em fazer música gastalheira e que eu devoro tudo aquilo que põem cá fora. Em 2019, aventuraram-se no thrash metal com Infest The Rats’ Nest, um disco eletrizante que, apesar de ser já muito interessante, ainda soava como primeira abordagem da banda ao género.

Quatro anos mais tarde e oito álbuns depois, os King Gizzard voltaram a abordar o thrash metal, mostrando uma evolução clara e uma consolidação dessa identidade no esmagador PetroDragonic Apocalypse; or, Dawn of Eternal Night: An Annihilation of Planet Earth and the Beginning of Merciless Damnation (geralmente abreviado para PetroDragonic Apocalypse). Se, em Infest The Rats’ Nest os King Gizzard molharam os bicos dos pés no caldeirão do metal, em PetroDragonic Apocalypse mergulharam de cabeça. Face a Infest The Rat’s Nest, PetroDragonic Apocalypse destaca-se por uma maior coesão e, acima de tudo, uma maior intensidade. Tem muito mais galopada, fica mais na cabeça e, ainda assim, mantém a essência experimental da banda. Além disso, também partilha elementos narrativos com o predecessor estético. A narrativa de PetroDragonic Apocalypse gira em torno de um ritual para restaurar o equilíbrio do planeta, efetuado por sobreviventes de uma Terra pós-apocalíptica. O ritual acaba por fracassar e dá origem a uma criatura colossal, o PetroDragon. Tal como em Infest The Rats’ Nest, a história serve como metáfora para os desastres ambientais causados pela exploração dos recursos naturais, especialmente os combustíveis fósseis. É um tema praticamente transversal à discografia dos australianos.

“Motor Spirit” abre o álbum com uma explosão avassaladora. O riff inicial irrompe com um peso esmagador, lançando uma sombra densa sobre o disco, enquanto a voz arrastada de Stu ressoa como um cântico hipnótico. A canção também revela algo que os KGLW acertaram na mouche ao longo de PetroDragon Apocalypse: o equilíbrio entre a intensidade dos riffs e o espaço que lhes permite respirar. Riffs explosivos não são nada sem uma secção boa que os sucedem, não é verdade?

Prosseguindo, “Supercell” destaca-se pela cadência implacável, onde as guitarras entregam riffs cortantes que se entrelaçam com mudanças de tempo, criando uma complexidade subtil que mantém o ouvinte em constante alerta. Esta combinação de velocidade e técnica encapsula o thrash metal clássico sem cair na mesmice. “Converge” (a minha favorita do álbum) e “Dragon” espelham um sentimento semelhante de escapar à monotonia do género, apresentando estruturas multifacetadas que as tornam em faixas super cativantes.

Por outro lado, em “Witchcraft” verifica-se uma fusão elegante do peso do metal com nuances psicadélicas, naquela que é a faixa mais “King Gizzard” do álbum. Quem é fã da banda imediatamente reconhecerá os gritos característicos de Stu McKenzie. É uma faixa preparada para ser tocada ao vivo, como muitas deste álbum. Porém, nesse aspeto, nada se aproxima em PetroDragon Apocalypse de “Gila Monster”, um hino de arena que impressiona desde o primeiro segundo. A bateria arranca com força, preparando terreno para um riff contagiante, enquanto os repetidos “GILA” transformam a faixa num hino pronto a ecoar por uma grande arena fora (as numerosas lives que tenho assistido da banda a tocar o álbum no YouTube assim comprovam). Por último, quando “Flamethrower” se impõe, o álbum encerra com uma demonstração de virtuosismo, fundindo elementos eletrónicos e texturas futuristas com a robustez de riffs metálicos, relembrando momentos de “Motor Spirit” e “Witchcraft” para selar a coesão temática do projeto.

O que me faz gostar verdadeiramente de PetroDragon Apocalypse é a novidade. Tem psicadelismo, um conceito extravagante e, ao mesmo tempo, consegue transmitir aquela energia visceral que faz o coração ribombar. Foi exatamente esse sentimento que me fez apaixonar pelo thrash metal. Num mundo onde tantas bandas vivem à sombra dos gigantes do passado, os King Gizzard não imitam. Desconstroem, reinventam e criam algo inteiramente seu. PetroDragonic Apocalypse é um turbilhão de influências: thrash poeirento, energia punk, peso Motörheadesco, sons microtonais que tanto os australianos adoram, e uma veia progressiva e psicadélica que só eles sabem explorar. Um grito de afirmação de mestres da sua própria linguagem dentro do metal.

Porém, será que o público do metal abraçou este disco como deve ser e como merece? Será PetroDragonic Apocalypse um passo para revitalizar o thrash ou apenas mais um grito no vazio, ignorado por um género preso ao passado? Os King Gizzard & The Lizard Wizard mostraram neste álbum que era possível trazer frescura sem desrespeitar as raízes do thrash metal. Contudo, será que os fãs querem realmente essa mudança? Eu diria que não. O mais certo é que tudo continue igual, infelizmente. Mesmo que a banda volte a lançar um disco de thrash tão bom quanto este, o impacto continuará a ser limitado. Todavia, afirmo: como gostaria de estar errado! Quem sabe se, no futuro, por causa de PetroDragonic Apocalypse, mais bandas ousem tentar reinventar o thrash metal. Espero que sim.

Os King Gizzard & The Lizard Wizard vão estar em residência no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dias 18, 19 e 20 de maio. Os bilhetes para as três sessões podem ser adquiridos aqui.

Filho do rock, do doom e de todos os géneros musicais que nos façam abanar as ancas e a cabeça, reside em Braga onde estuda engenharia. Poderão encontrá-lo em qualquer cave onde haja barulho e em qualquer local onde haja cerveja a preços abaixo da média.

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