Há algumas semanas, fui jantar a casa de um casal amigo. Estávamos a falar de música enquanto “vibe”, conotação para descrever sonoros que se popularizou durante a era do streaming ao longo da última década. A dado momento, o meu camarada atirou para o ar a seguinte frase: “É como a música do Gran Turismo. Tem uma vibe muito específica.” Achei curioso o timing e sorri timidamente. Pensei: será que ele está ciente que o jogo que definiu a vibe de “música de Gran Turismo” está a fazer por esta altura 20 anos? Não lhe perguntei porque não precisava de uma resposta. Era só mais um sinal para escrever sobre este assunto que me é tão querido.
Sim, fez 20 anos no início de março que Gran Turismo 4 foi colocado à venda na Europa, meros meses depois de ter sido lançado no mercado japonês. Sentem-se velhos? Espero que não.
Quando ouço alguém a falar de “música de Gran Turismo”, este é o jogo que surge como referência para esse “tipo” de música. Mas primeiro, uma distinção. Na série de videojogos Gran Turismo, existem dois tipos de banda sonora.
Uma é a que toca no menu enquanto compramos carros, modificamos esses mesmos bólides, ou escolhemos o próximo evento em que vamos competir. Essa é a música que define “música de Gran Turismo”. Um bom exemplo é AILERON, o primeiro álbum dos YAKUZA: a sensação que cria, de noite infinita apropriada para meter Supras e NSXs a bombar autoestrada adentro, é semelhante à da banda sonora de Gran Turismo. Ao som das malhas de AILERON, pensamos imediatamente em automóveis japoneses – e Gran Turismo é um videojogo de criação nipónica.
A outra é a banda sonora que toca durante as corridas, preenchida por música eletrónica e rock alternativo do período em que cada jogo da série de videojogos foi publicado. Através da versão europeia de Gran Turismo 4 (a que joguei em miúdo na minha velhinha e ainda funcional Playstation 2), descobri bandas como Feeder, Queens Of The Stone Age, Franz Ferdinand, The Hives, The Distillers, Fischerspooner, ou The Soundtrack of Our Lives enquanto dava voltas aparentemente infinitas ao Nürburgring Nordschleife no meu fiel Mercedes-Benz 190 E 2.5 16 Evolution II (um dos meus carros favoritos de sempre). Gran Turismo 4 tornou-se crucial para o desenvolvimento do meu gosto musical, pois muitas destas bandas tornaram-se mui importantes para eu querer descobrir mais música e, mais adiante, escrever sobre música. Depois de jogar Gran Turismo 4, por várias razões, a minha vida nunca mais foi a mesma, eu nunca mais fui o mesmo. Obrigada à minha avó por me ter oferecido o jogo depois de a ter chateado tanto. Era um puto bem chato (às vezes).
Regressemos à “música de Gran Turismo” e aos sons que se escutam enquanto o jogador deambula pela interface do videojogo. Em Gran Turismo 4, as canções que se escutam no menu do jogo são malhas de jazz fusion nostálgico e relaxado, influenciadas pela música de artistas como Herbie Hancock, CASIOPEA ou Weather Report. Até Gran Turismo 4, grande parte da música de menu do videojogo tinha sido composta pelo compositor japonês Isamu Ohira e pelo músico japonês Masahiro Andoh, ex-guitarrista dos lendários T-Square.
As composições de Andoh são chamativas e icónicas (como “Moon Over The Castle”, o tema de Gran Turismo), mas é a música de Ohira que se tornou crucial para a aura dos primeiros quatro títulos da saga. Quando penso em voltar a jogar alguns desses títulos, o que me vem primeiro à cabeça são as composições de Ohira. Como extra, Gran Turismo 4 foi o último Gran Turismo para o qual Ohira compôs originais. A sua carta de despedida para os fãs acabou por se tornar a banda sonora mais icónica da saga inteira.
Gran Turismo 4 não foi o primeiro Gran Turismo que joguei. Uns anos antes, lembro-me de jogar na Playstation 1 Gran Turismo 2 (1999) e de me viciar fortemente. Nunca completei esse jogo na minha infância – só durante a minha adolescência –, mas o bichinho ficou. O das corridas, dos carros, do Gran Turismo.
Gran Turismo 2 é um registo importante na história da saga. Após o sucesso de Gran Turismo (1997), a Polyphony Digital, empresa responsável pelo desenvolvimento da série, rapidamente começou a trabalhar no ambicioso segundo título da série. Muitos mais carros (mais de 600 – um número consideravelmente superior aos 140 de GT1), muitas mais pistas – ainda praticamente todas fictícias –, um modo carreira muito mais longo e diverso. Apesar das suas muitas imperfeições, Gran Turismo 2 tinha tanto para se gostar e fazer que se tornou também um sucesso. Foi o último Gran Turismo a ser lançado para a Playstation 1 e a sua ambição abriu as portas para que Gran Turismo 4 existisse anos mais tarde na Playstation 2: mais de 700 carros, a inclusão de várias pistas reais, um modo de carreira que demora meses para completar. Entretenimento em abundância, portanto.
Além disso, foi em Gran Turismo 2 que se estabeleceu definitivamente a vibe jazzy da música de menu do videojogo. Em Gran Turismo, de 1997, na versão americana e europeia do jogo escutam-se composições de eletrónica próxima do industrial, mesmo à anos 90; na versão japonesa, escuta-se o jazz de Isamu Ohira, cujas bases foram utilizadas para criar as malhas que se tornaram icónicas em GT2, GT3 (o mais vendido da série) e GT4 (reconhecido como o melhor jogo da saga). Um bom exemplo disto é a evolução da canção “From The East To The West”, uma das mais icónicas e nostálgicas de Gran Turismo 4, a cada título. A versão de Gran Turismo, onde aparece como a música que toca quando acedemos ao concessionário da Toyota (na versão japonesa do jogo), é uma malha mais próxima da eletrónica, muito assente mais no beat do que as outras duas versões da faixa, presentes em GT2 (mais assente na groove) e GT4 (mais assente na ambiência).
A evolução de “From The East To The West” demonstra como Isamu Ohira refinou as suas composições conforme as indicações dadas pela equipa liderada por Kazunori Yamauchi, criador da saga, com base na interface de cada jogo. Para GT1 e GT2, cuja estética consiste num cyberpunk retrofuturista, faz sentido que as canções se aproximem mais da eletrónica. Ao chegar a GT4, a saga enveredou mais por uma estética de lounge executivo, e a música de Ohira acompanhou essa evolução. Não é que as canções presentes em GT4 queiram saber menos da groove ou da batida, mas claramente priorizam a ambiência. A construção sonora passou a dar ênfase a sons de teclados e sintetizadores e não tanto ao jogo entre baixo e bateria. Porém, este não desapareceu totalmente (“Endless Journey Ver. II”), nem a guitarra deixou de ser tão virtuosa, mesmo quando é explorada mais à Brian Eno na sua fase de música ambiente (“An Old Bassman”).
Uma das minhas malhas favoritas de Gran Turismo 4 chama-se “The Drift of Air”. Esta canção apareceu pela primeira vez em Gran Turismo e voltou a surgir em GT2 e GT4. A versão de GT1 é uma malha super otimista, muito assente na habilidade de Ohira enquanto guitarrista. A versão de GT2 é extremamente jazzy, muito assente na groove, ainda relativamente upbeat. A versão de GT4, por outro lado, é mais lenta. A groove ainda importa, mas já não soa tão upbeat. Soa a memórias distantes, cheira à alcatifa do carro antigo do teu avô, à pele do volante daquele carro que sempre sonhaste ter (o meu é um RX-7 dos anos 90 e muita da razão de o ser é Gran Turismo).
As composições de Ohira são músicas quentinhas criadas com o intuito de nos fazer passar o maior tempo possível imerso no universo do Gran Turismo. É a música perfeita para se ter como fundo enquanto passamos horas a ver carros de diferentes marcas dentro do jogo, imaginando guiá-los na vida real, no mundo virtual, aprendendo a história (resumida) da indústria automóvel. Já agora, não é interessante como esta ideia de laid-back listening se assemelha à que se propagou durante a era do streaming? Já havia música como “vibe” antes do domínio das plataformas de streaming e a “música de Gran Turismo”, como dizia o meu camarada, é um dos melhores exemplos disso.
No total, Gran Turismo 4 vendeu mais de 11 milhões de cópias para a Playstation 2. Portanto, muitas pessoas escutaram as composições de Ohira, muitas pessoas foram tocadas pelas malhas da autoria do compositor nipónico. Um breve scroll pelas caixas de comentários de cada uma das suas composições expõe isso. Estão cheias de mensagens de indivíduos que revivem tempos do passado e relatam o quão importante aquela música, a música de um videojogo, é para eles. Eu nunca deixei um comentário desse género no Youtube (que me lembre!), mas as composições de Ohira também me marcaram imenso. Além das memórias, essas músicas precipitaram um certo fascínio pela procura de sons semelhantes. Demoraria ainda um bom par de anos a conseguir encontrá-los, mas quando comecei a explorar mais música oriunda do Japão e descobri coisas como city pop, percebi o elo de ligação entre esse género e as composições que me fascinavam enquanto puto: partilhavam a mesma nostalgia quentinha por um passado que mais se assemelha a um futuro colorido. Não soa a música de um período específico. Soa a música eterna.
O ano passado voltei a jogar Gran Turismo 4 pela primeira vez em anos. Comecei um save do zero e já passei mais de 50% do jogo desde então. Diverti-me imenso (até porque alguém conseguiu ampliar a experiência do jogo com um mod) e voltei a pensar nestas canções. Foi por ter voltado a jogar GT4 que comecei a pensar neste artigo e no que queria escrever sobre este tema. E apercebi-me de uma coisa curiosa: quando era puto e joguei Gran Turismo 4 pela primeira vez, as composições de Ohira já me faziam pensar numa era diferente daquela em que estava a jogar o jogo. Transportavam-me para uma época diferente, um universo diferente. Faziam-me sentir como se já tivesse passado horas a pensar em que carro comprar, que pista correr. Déjà vu. Escutá-las 20 anos depois não alterou isso. Continuam a transportar-me para outra época, continuam a servir de escape ao desastre assustador que é o mundo real. Continuam a aquecer-me o coração, continuam a fazer-me querer passar horas a jogar o jogo (não sei o que diz isto diz de mim enquanto adulto com 26, quase 27, anos, mas ok).

Além disso, quando voltei a jogar Gran Turismo 4, pensei noutra coisa. Não sabia quase nada sobre Isamu Ohira. Felizmente, apercebi-me que não era o único com essa curiosidade e que algumas pessoas tinham conseguido chegar até ele. No final de 2024, Chris Perkins, editor da publicação Motor1, entrevistou o compositor e desvendou alguma informação sobre ele. Ohira começou a tocar guitarra durante a década de 70, ainda muito jovem (nasceu em 1967), mas foi no secundário que encontrou a sua paixão: o jazz. Mais concretamente, o jazz de fusão.
Com amigos, começou a tocar CASIOPEA, e depois “apaixonou-se” pela abordagem ao instrumento de Larry Carlton, um dos guitarristas de sessão mais prolíficos da década de 70. O seu envolvimento com a guitarra aumentou e, aos 21 anos, Ohira decidiu ir estudar para Berklee, onde aprendeu mais sobre composições e arranjos. Todo esse know-how foi utilizado, anos mais tarde, para criar a música de Gran Turismo.
Ohira tornou-se um dos compositores da banda sonora da saga através da recomendação de um velho amigo de liceu. Yuichi Matsumo, um dos principais responsáveis pela criação dos modelos do Gran Turismo original, recomendou a Kazunori Yamauchi que escolhesse Ohira para compor a banda sonora do videojogo. “Quando estávamos a discutir qual era a música que geralmente aparecia em videojogos de automóveis, apercebemo-nos que não existia nenhum jogo com uma banda sonora de jazz”, relatou o compositor à Motor1. A partir dessa ideia, Ohira meteu as mãos à obra. O resto é história.